Abelhas na minha cabeça

Era tarde de um domingo ensolarado com poucas nuvens, e estavamos no carro rumo a Fazenda Valinhas, que privilégio! Quando se muda de cidade, receber convite pra ir em algum lugar é uma grande vitória social, é como se nós 5 lá de casa pensássemos em uníssono: "Estamos nos adaptando!" Fomos super bem recebidos, os Valinhas eram queridos e sorridentes: Valinhas (o pai), Rita (a mãe), Raquel (a filha) e Daniel (o filho). Ao visitar meu pai no trabalho, eu já tinha avistado e conhecido o Valinhas, e também visto Raquel na escola, ela era da mesma sala do meu irmão. Curioso como a gente se lembra de coisas específicas, ne?! Eu lembro de ficar fascinado com o fato de que ela tinha uma cobra (na minha cabeça ela era verde, e eu acho que isso era só algo da minha cabeça mesmo). Morar no interior de Minas Gerais tem curiosidades incríveis, há uma aparente personalidade mais evidente nas pessoas. Coisa que eu percebo que cidade grande parece pasteurizar. Então aproveitar aquele dia em uma fazenda era com certeza motivo de muita alegria pra um adolescente de 12 anos ali no começo dos anos 2000 sem smartphone e boa internet no computador. Eu estava muito animado com as possibilidades daquele dia, sem imaginar nada do que aconteceria. Preciso ser sincero, essa é uma memória antiga (por volta de 20 anos) mas vou tentar lembrar com os detalhes que ficaram desse dia. Além do clima descontraído, lembro também de conhecer uma fruta que só tinha ouvido falar: a carambola. O seu formato lindo de estrela, ainda mais linda quando cortada. E ela fica ainda mais intrigante quando se descobre que ela, em excesso, pode matar. Pra uma criança de 12 anos, era um prato cheio pra pensar quantas pessoas já tinham passado por aquela árvore e acidentalmente morrido ao comer (provavelmente nenhuma, mas eu era imaginativo, então deixe a criança imaginar todos os cenários catastróficos porque não havia muito o que fazer numa cidade com menos de 30 mil habitantes). Mas chegamos agora no core principal dessa memória: abelhas! Um fato curioso: Valinhas e Daniel (seu filho), além de vários talentos que a vida da fazenda traz, cultivavam mel. E quando nos encontramos eles haviam comentado que em algum momento do dia eles teriam que cuidar das abelhas. E aquele momento havia chegado! Eu e minha irmã, super empolgados com a possibilidade de ir atrás na pickup que eles tinham, fomos juntos. A cena estava posta: nós empolgados na pick-up atrás, os dois com as roupas adequadas e aqueles chapéus gigantes brancos que cobrem o rosto e tem até uma telinha para cobrir das abelhas, e eu e minha irmã com roupas completamente inadequadas para a ocasião. Mas pelo menos o carro estava estacionado bem longe de onde eles iriam mexer nas abelhas. Então tudo seguro, né? Né?! Não exatamente 😅 No momento em que eles bateram o machado no lugar que prendia as abelhas, era como se eu visse centenas delas juntas armando um exército que mirava em um só lugar. Qual lugar? Na pickup cinza! O barulho ficava mais e mais alto e antes que a gente tivesse qualquer tempo pra qualquer coisa elas começaram a nos picar enlouquecidamente. Eu e minha irmã ficamos meio desorientados até escutas: "CORRAM PRA DENTRO DO CARRO" E assim fizemos, no mais rápido que aquelas pernas de criança conseguiam, descemos o mais rápido possível e entramos no carro. Não sozinhos, como esperado. Logo depois tive o movimento mais instintivo que uma criança católica poderia ter: colocar as mãos juntas, me dobrar ao meio, e pedir por misericórdia à primeira santa que me veio à cabeça: AVEMARIACHEIADEGRAÇAOSENHORÉCONVOSCOBENDITASOSVOISENTREASMULHERES… e enquanto isso acontecia em sentia picadas na minha cabeça enquanto eu suava frio e em desespero. Nessa hora eu confesso que nem conseguia pensar na minha irmã que estava do meu lado, mas logo me lembrei porque ela começou a RIR! Como alguém podia rir nessa situação? Mas a verdade seja dita, minha irmã sempre foi mais destemida que eu. Depois desse desespero que pra mim pareceu durar duas horas (e provavelmente foi menos de 4 minutos), já estavamos voltando pra sede da fazenda. As pessoas na fazenda nos receberam sem entender o porquê eu chorava tanto (pra variar), e então depois de explicarmos demos a sorte de quem alguém ali tinha um antialérgico que eu imediatamente tomei. O hospital mais próximo era 40 minutos dali, então agora era somente esperar o efeito do remédio, e o meu pequeno desespero. Naquele momento eu consegui olhar pra minha irmã que tinha uma pequena risada de lado olhando meu desespero, e perguntei: "Quantas picadas você teve?" E eu entrei em um novo choque ao ouvir a resposta: "uma". UMA? Como assim todas as abelhas vieram em mim? E o sentimento de revolta me voltava cada vez que minha mãe aumentava o digito do contador de picadas que ela tirava da minha cabeça: "seis… sete… oito… nove… dez…" e depois disso eu acho que ela decidiu parar de contar de ver minha decepção. Com sorte, seguimos o dia bem. Lembro de risadas depois do susto, e aos poucos eu ia sentindo meu rosto ficando mais… engraçado?! Inchado?! Tudo de uma vez… Quando decidi contar essa história nesse conto, decidi também entrar em contato com a família Valinhas pra saber como eles se lembravam desse momento, e foi divertido saber que pra eles também ficou uma história engraçada pra se lembrar.

Abelhas na minha cabeça

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